Publicado por : Beton domingo, 31 de outubro de 2010

Por marcsheep


Na ultima semana, acompanhamos Steve reconhecendo o quanto a plataforma Mac avançou e trazendo dados que mostram a penetração de mercado dos produtos Apple. Nos Estados Unidos, o market share (fatia de mercado) da Apple é de 20,7% na venda total de computadores pessoais, restando 79,3% para todas as outras fabricantes de PCs — dados referentes a agosto de 2010, do NP D Group. É um excelente resultado, visto que a Apple abocanha sozinha mais de um quinto do mercado com um produto altamente diferenciado e com uma estratégia de preços premium: sim, pois na terra do Tio Sam os Macs ainda são relativamente mais caros que os PCs. Ou melhor, a Apple tem sozinha ~21% do bolo dos consumidores que pagam *mais* nos computadores, enquanto o resto do mercado tem que competir entre os ~79% restantes — e competição é guerra, guerra é sangue, e para competir na guerra, as empresas têm que sacrificar margens de lucro e disputar, muitas vezes, pelos preços mais baixos.
São essas as principais ideias do livro “A Estratégia do Oceano Azul”: empresas que competem e não buscam a verdadeira diferenciação dos seus produtos — como a maioria das fabricantes de PCs — estão fadadas a diminuir margens de lucro para abocanhar maiores participações de mercado. Esse cenário de competição, guerra e sangue é característico dos mercados chamados “Oceanos Vermelhos”.

Empresas como a Apple não estão preocupadas em competir por preço; elas querem levar os seus produtos a um novo estado da arte e posicioná-los em níveis superiores. O que a Apple faz ao incluir o Mac OS X nos seus computadores é criar um mercado totalmente novo: o de usuários de Macs, que só ela pode explorar oferecendo computadores com o devido sistema operacional. Essa exclusividade e preocupação com o posicionamento superior do produto é característica dos mercados chamados “Oceanos Azuis”, onde as empresas não encontram concorrentes — afinal, depois que você veio para o mundo Mac, ainda lhe interessa saber as especificações e comparações de modelos de PCs convencionais? Devem fazer menos sentido, agora.

Essa estratégia de posicionamento superior foi comprovada em outra pesquisa no final de 2009, segundo o NPD Group, ou seja, a Apple domina quase que completamente a parcela de mercado dos melhores e mais lucrativos clientes. É preciso ter a ideia de que a finalidade de uma empresa é gerar LUCRO, que não significa necessariamente dominar uma grande parte do mercado — muito pelo contrário, pois, na maioria das vezes, para atingir uma fatia maior do mercado se faz necessário competir por preços e abaixar margens (e às vezes até a qualidade do produto). É notório, portanto, que a Apple é muito bem sucedida em sua estratégia de abocanhar não a maior, mas a melhor e mais recheada fatia do mercado.

Mas, pensando em Brasil, o posicionamento da Apple é bem sucedido?

Estamos num cenário em que, apesar da sofisticação do mercado de tecnologia, nosso consumidor é bastante sensível a preço. Qualidade, durabilidade e experiência do usuário não são prioridades do nosso mercado — isso é “frescura”. A grande massa de consumidores não é amadurecida suficientemente para entender que um “night bruit” de R$900 não oferece a mesma experiência que um MacBook Pro de R$3.800. Esse é o retrato do nosso mercado.

Em contraponto aos quase 21% de market share no mercado estadunidense, a Apple Brasil abocanha apenas 1,5% do mercado doméstico de computadores, ou seja, atinge apenas o nicho do nicho do nicho do mercado. Talvez seja por isso que a Apple trate tão mal o Brasil: estão lembrados do lançamento atropelado do iPhone 4 aqui no país? Dois dias antes e não havia uma confirmação oficial do lançamento, nem em quais lojas o smartphone poderia ser encontrado — apenas rumores e boca-a-boca. Apple Retail Store? Nem sombra dela! Orgulhosamente, o Brasil é o país do futebol e dos iPhones e MacBooks mais caros do mundo! [4, 5] Essa avaliação é apenas monetária, convertendo os valores da nossa moeda em dólar e comparando com os em outros países. A comparação que faço agora leva em consideração nosso nível de renda, poder de compra e tempo de trabalho para comprar um Mac, a fim de atingir resultados mais próximos da realidade.

Primeiramente, um trabalhador norte-americano não recebe salário mínimo, o que há é um piso para o valor da hora trabalhada, que é de US$7,50. Se multiplicássemos esse valor pelas 40 horas semanais de um trabalhador brasileiro, chegaríamos a um valor médio de US$1.160 que um trabalhador nos EUA produziria ao final de um mês — será esse valor que vamos utilizar como piso.

Um MacBook Pro de 13” custa lá fora US$1.200, que dá na nossa moeda uma base de R$2.040. O mesmo modelo é vendido no Brasil por R$3.800. É uma diferença de preço de 86% a mais sobre o valor original do MacBook nos EUA. Mas essa ainda não é a maior picada! Adotando como valor base um salário mensal de US$1.160 — equivalente a cerca de R$1.970 — um trabalhador estadunidense precisaria trabalhar pouco mais de 1 mês para pagar o MacBook Pro. Adotando como valor base o nosso salário mínimo mensal de R$510, o nosso pobre coitado empregado brasileiro teria de trabalhar 7 meses e 12 dias para pagar os R$3.800 referentes ao mesmo modelo de Mac. É uma diferença de dias trabalhados de 740% a mais(!) sobre o trabalhador norte-americano.

Para você adquirir um iPhone 4 nos EUA, o valor de compra é de US$200 — ou aproximadamente R$340 —, e os planos começam a partir de US$40 mensais. A despesa com esse plano significa 3,44% do que um trabalhador norte-americano ganha. No plano Claro 2000, por exemplo, você pode adquirir o iPhone 4 por R$340, com um grande detalhe: o valor do plano mensal é de R$710. A despesa com o plano brasileiro significa 139% do salário mínimo do pobre coitado trabalhador brasileiro. O consumidor nacional gasta uma proporção do salário 4.040% maior que o estadunidense — 139% vs. 3,44%. Confesso que é assustador constatar essas disparidades. Em parte, muito disso se deve à altíssima carga de impostos, que mais uma vez bate recordes mundiais! Você, que ficou na fila para comprar o iPhone 4, pagou 16% de taxa de importação, 15% de IPI, 9,25% de PIS e Cofins e 18% de ICMS. No total, são 58,15% somente em imposto!

É bom refletirmos, pois isso pesa diretamente no nosso bolso: pagamos R$1.045 de imposto quando adquirimos um iPhone 4 por R$1.800.

antes de publicar este post, havia acabado de mandar um email para alguns amigos, mostrando a foto da nota fiscal da compra do meu MacBook Pro; bom, vejam a imagem, ela vale mais do que mil palavras...


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